terça-feira, 12 de julho de 2011

E talvez...

E tomar alguns calmantes, sei lá. Sair por aí sem ter hora pra voltar, sem ter ninguém te esperando. Talvez seja essa a solução, saber que não tem mesmo ninguém te esperando, se livrar d’uma agonia constante, martelando seu pensamento. Viver uma vida sem a chance do “talvez”, na certeza de qualquer coisa sólida, inútil. Ensejando um momento qualquer de paz, de tranquilidade. Talvez eu queira também gastar as minhas horas, derramando o medo escrachado do tempo pelo caminho. Delirando momentos. Era assim que meu avô dizia. Meu avô, meu refugio. Minha mentira inocente, meu álibi. Mas talvez, ainda assim, a mentira, solução de quem vive, ou a verdade, cobrança de quem ama, seja o estado inestimável em todas as outras pessoas, que não eu. Que não quem amarei.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Full Of Anything

Ela sangrava o coração, mas ele detinha as canetas, dilacerando-a a cada palavra.

- Já! E ela correu. E foi correndo. Correndo até se distanciar o suficiente pra que eu perdesse meu foco, o suficiente pra que o odor e o sabor de qualquer coisa se espezinhassem pelo chão da sala. Do quarto. Dos cômodos que você pisou, e principalmente dos que você não pisou. Sim, a vida era longa, proporcionalmente longa ao penar que se impunha a mim, e a tudo aquilo que cumpriria o fado da tua ausência.

Os vitrais coloridos de histórias e sóis. Quiçá. As cortinas, agora, mofadas de suor e lágrima, de gozo e riso, choro e sono.

Era manhã cedo, madrugada, e o feno exalava os ares do campo úmido, molhado de frio. O corpo pedia lenha, fogo e dengo. O dengo que foi preso na tua mala, de volta pra qualquer coisa, lugar qualquer que detinha o que qualquer outro lugar não pudera reter.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os velhos, os gatos e o sótão

Não um bar, um sótão, os velhos e as cartas. No andar de cima a velha viúva velha do velho que entregara as cartas. O velho, vítima assassina da união desgastante e das alianças baratas. O espectro dos gatos pela sala, sobre a poltrona gasta, sob o sofá verde musgo. Os ruídos do novo velho mógno dos móveis pela casa, caixas de fotos sem feições sobre o guarda-roupas, acinzentado pela fumaça do incêndio que houvera no casarão ao lado, desabitado desde o sempre.
A cortina balançava sob o efeito do vento que já não sopra, um diário de folhas amareladas e histórias herméticas. Quede o poeta gritou, as folhas caíram, o sol cessou o brilho e os sonhos adormeceram.

Beatriz Meira Matos

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Não quero esconder as nuances de mim, nem passar a um mundo sem música, quando eu abrir os olhos o tempo não vai ter passado, a vida me espera, as janelas hão de abrir, e meu sorriso há de se estender.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Mais tarde

O vento não mais lhe alvoroçava o cabelo;
E os olhos se embebedavam, por vez, de lágrimas,
Arrastando gestos dos dias que não vieram;
E das cartas que não chegaram;
Mas porcas são as palavras, que pensam por si só.

Beatriz M. Matos

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Nada

Acusa a lágrima;
Engole a calma;
Frágil torna;
Suspiro solta;
O lábio encosta;
Aceita a volta;
Carrega a mágoa;
E chora a perda.

Beatriz M. Matos

segunda-feira, 22 de março de 2010

E na mácula as cores se formaram
E se misturaram
As palavras talvez roubadas
Talvez pensadas
Fluíam de sua boca
Como se de teu passado fossem arrancadas
Verdades nunca vividas

Na exatidão da incerteza
A vontade de ter
E a raiva do não ser
A vida secreta que desperta
A vontade de viver o que não se quer.

Beatriz M. Matos